quinta-feira, 4 de abril de 2013

# Lembrar com o coração® – Parte III

>> As heresias do homem sem passado
e suas expectativas de futuro


– Mas há tantas coisas para não se esquecer... –, relincham quase sem palavras os temerosos e incrédulos de si. No entanto, para evitar o espaço comumente dedicado aos seus egos fracos pela necessidade de constante reafirmação. Retruquei então, já em tons de certa impaciência:

– Já não desejamos até bem mais do que podemos reconhecer e lembrar? E por acaso ainda não vivemos, e mais ainda desejamos?

Mas ainda, insistem em suas ilusões, agora com arrogância e cridos de suas próprias pertinências:

– Diga-me então, mas não nos engane com seu modo poético de negar nossa poesia... – reclamou uma jovem senhora dona de um semblante clinicamente analítico. – Diga-nos: Se lembrássemos de todo o tempo que já vivemos, e de tudo não nos desfizéssemos em notas bem engavetadas, onde haveria espaço para a novidade? O que enxergaríamos se a tudo sempre e sempre recordássemos? Sobreviveríamos a esse entulhamento das ideias?

– E os outros, aqueles ainda por vir, seriam privados no castigo de redescobrir o que já encontramos? – completou uma outra mulher que ali estava há muito ansiosa alguma oportunidade de fala.

– Bem, noto que mesmo me vendo e ouvindo, não me compreendem –, disse-lhes inclinando meu olhar com mansidão sobre seus ofensivos olhos. – Não nego sua poesia em meus versos, mas sua crença de que algo possa sobreviver fora dos corpos. Algo mesmo que nos pareça belo, o é em nós, e só porque outro também diz que nele belo lhe é, não significa que o mesmo seja.

E vi então em seus olhos a tensão se desfazer, não só a senhora, mas agora outros tentariam me entender, pois o coração lhes rachara com essas ultimas palavras.

– Ruminar o pensamento não é, e eu bem vos digo, “não” é mantê-lo vivo como uma luz eternamente acesa. Mas fazê-los corpo na continuidade de um movimento que é eterno desde a fundação dos tempos e que continuará naquilo que nos saberemos eternidade. Pois é justamente de esquecer sobre o que verdadeiramente lhes falo, e não, nunca foi sobre lembrar.

E nisso se espantaram, alguns curiosos outros novamente descrentes, mas continuei:

– Tal qual esquecer não se faz pela negação das forças intensivas da vida, não se faz estando no rio fingindo não estar. Não me refiro ao esquecer amedrontado como sempre tem feito o homem herdando o medo da vida como algo congênito a própria vida. Refiro-me então a um grau de aceitação do tempo, da matéria e das ideias, onde memória e corpo se indistinguem, lembranças são cicatrizes e o pensamento se apresenta como o alimento do qual primeiro se tirou força pra nós mesmos, antes de apresentá-los ao outros.

O silêncio suspendia o ar sobre essas palavras, até que por voz de homem se rogou novamente as lógicas do tolo. Lógica daqueles que não querem a resposta ao fim da pergunta, mas sim guerrear pela razão.

– Louco! Queres então queimar nossas bibliotecas, negar o que tão bem fez nossos antepassados? Não basta ser louco, queres nos contagiar com suas heresias de homem sem passado! De homem sem nome, diferente de todos nunca o mesmo!

E uma grande confusão se armou, a ponto de até me fazer pensar em desistir dos poucos que em meio a muitos me ouviam.

Daí, crido na dignidade do corpo pensante, relutando com a pobreza do espírito imundo que ameaçava contagiar alguns dos que me começava compreender, eu insistir em voz que se sobrepôs a todos:

– Sem reluta de verdade, ou caminhos fáceis em minha explicação eu vós afirmo: Toda a sua saudade é a própria memória do coração, enquanto as suas expectativas são o reuso de lembranças em prol do desejo de novas versões de futuro.Vos falo,e assim faço sem medo algum do vosso comum caminho de crucificação dado aqueles que lhe ousaram com Verdades. E ainda mais, que a versões de futuro que cada um de vocês espera é aquela onde mesmo dizendo que não, vocês pensam, e querem veementemente ser diferentes de si mesmo! Olhem, mas enxerguem, pois diferentes vocês já o são e constantemente o são não só dos outros como de si mesmos!

Então todos se calam e dispersão para longe daquela verdade. Mas eu confesso que aquela era uma pequena parte de tudo o que eu ainda tinha para lhes dizer. No entanto, não me doeu lhes ver dispersar, pois tudo o que lhes diria, faria pouco a pouco. Hoje eu havia tomando proveito dos poucos corações entreabertos e cada qual sua pequena dose recebeu.

Era-me necessária paciência, pois se de uma única vez eles de tudo soubessem, menos ainda iriam crer. Mas de certo me guardo de que os quais me ouviram e me viram, na novidade de suas mentes, aos poucos se perceberão aprendendo, conhecendo e lembrando por estranhas lógicas cardíacas onde as intensidades de amor aos poucos serão o centro de todo sentido, e daí nascerão os verdadeiros significados – mas isso da semântica do amor, é motivo para novas e outras correspondências.

# Lembrar com o coração® – Parte II

>> Sobre a ruminância do não-dito
e a nudez dos pés


– A reflexão de nós mesmo sobre as águas das eternas transformações do rio em que um dia o homem entrou, hoje dão lugar a uma longa estante de rostos prontos que pensam por eles antes deles. – disse isso mesmo sabendo que escandalizava a muitos.

– Agora somos falsos, mascarados hipócritas? – me perguntou sarcasticamente um senhor bem vestido de linho, riqueza e prepotência. – O senhor tem certeza que escolhes me ofender? Por acaso sabe com quem está a falar?

– Quando já não há mais pensamento livre dentro do corpo é porque fomos acreditados que ideia boa é aquela segura fora de si. Aquela na vitrine, exposta para vestirmos e caminharmos por ai. – disse a todos e então me voltei ao senhor que se via bem vestido.

– E é esse o motivo que me leva a dizer tais coisas, pois cultivar pensamentos em modos de ruminância é de extrema necessidade. Aquilo que dizemos ser distancia-se a passos largos de quem somos e como principio enganamos primeiro a nós mesmos. –insisti em afirmar sem receios.

– Olha lá rapaz veja bem com que está falando, somos a importância e a continuidade disso tudo. – me disse outro senhor também escondido de si em boas roupas e poder.

– A escritura que fazemos de nós mesmo uns para os outros não deve nos enganar. – disse para os senhores poderosos. – Tolos acham que nas coisas escritas se refletem o mesmo daquelas pensadas, ou ainda que das coisas pensadas algo possa ainda o mesmo ser quando escrita.

– Alguém chame a policia para acalmar esse homem que em praça pública ousa mentir. – exclamou os lábios vermelhos de uma jovem muito bonita que, como propriedade, parecia acompanhar um dos homens.

– A escrita é outro modo de espelhamento, de armação do ser. Mas esse é um modo já muito experimentado em toda essa sociedade que acredita que reflexo é a maneira como nos postamos frente às vitrines, nos dando aos jogos de sobreposição das imagens dos nossos próprios corpos em juízos já projetados antes mesmo de nós chegarmos, rostos, corpos e vidas, tudo pré-moldado.

Afastou-se a mulher indignada e levando uma das mãos no rosto e outra sobre o peito. Ambos, aparentemente, presente do seu proprietário.

No entanto, logo se deu as minhas vistas um jovem de aparência desleixada, que antes ali mesmo, em praça, tão público como a minha fala, fazia som com seu violino com fins de alguns trocados. Rapidamente se mostrou emergindo daquela pequena multidão e disse:

– Mas isso, tudo isso que você tanto insiste em reclamar, é pra colocar na memória só àquilo que o coração sente? – e disse dessa maneira, pois achava me agradar.

Contudo, tal como ele, existia outros que se acham profundos, apenas por aquilo que dizem preferir o compreender da vida se o fazem ao dizê-la em poesia. Como ele há outros que ainda não sabem, e por isso lhe disse:

– A poesia já nascia antes das suas partituras, antes do quadro, e até mesmo dos paços daquela dança no palco. Pois toda poesia nãoé o que se diz, mas sim modo divinatório de olhar para o mundo deformando-o de suas destrezas, um modo de torcer o retilíneo e curvar a mente daqueles que acham que as coisas existem poderosas por aquilo que são descritas.

E ele me olhou profundamente, como quem demonstrou que concordava no modo como me sorriu, se virou e saiu a gritar:

– Venham todos ouvir o que esse homem diz!

Então respondi aos que ficaram:

– Sim, deve-se lembrar com o coração! – e completei – Pois a lembrança que não é corpo, também não se regenera em cicatriz. Mas se vai, desfeita na sobreposição de lama constantemente renovada, mesmo que negada, por sob os pés sempre calçados dos temerosos e descrentes na vida.

Olhei para os meus pés e percebi quantos fizeram o mesmo. Pois eu estava descalço, e o que causou repulsa em alguns se tornava, em ato, continuidade da minha fala para outros. Pois todos ali também liam o meu corpo, mas como outros poucos entendiam o que lhes falava, menos ainda conseguiam me ver além das minhas roupas e pés descalços.

– Retirem seus falsos solados de pé! E ousem caminhar sobre si mesmo, deixem todo chão marcado de pegadas à medida que seus pés se marcam de chão! – disse sem pausa de respiração. Mas nudez de pés e espírito sempre lhes parece perigoso à saúde, que é essa mentira infame sobre estabilidade do ser. E assim, justamente assim pela preservação de um corpo que desconhecem que o ato de lembrar com o coração vira doença. Uma patologia própria de adolescentes febris de corpos monstruosamente mutáveis.

– Vocês pensão como se possível fosse a estabilidades dos seres, ao menos em algum momento “maduro” da vida. Olhem a natureza e se perguntem: “Tem a flor ou a fruta a plenitude sua existência somente em sua maturidade ou florescer? Não são elas o que são, mesmo que diferentes de si, tão antes quanto depois?”.

E antes que alguém, descrido e desentendido das integridades natural dos frutos e das flores, eu disse:

– Tolos os cridos nisso da estabilidade como plenitude de vida. Tolos os que confiam na pausa como descanso e essência da felicidade. Tolos os que confiam, e naquilo que mente finge pra si, os mesmo sempre ser. Tolos, não aqueles que não me entendem, mas os que escolhem não entender naquilo que fingem não ser parte do mundo; os que não acham em si nem o fruto, nem a flor.

# Lembrar com o Coração® – Parte I

>> Sobre a liberdade do
pensamento desanotado



Escrevo-vos não para a retenção do que falo, mas para o compartilhamento dos últimos acontecimentos no cumprimento da missão que me foi outorgada. Como também por saber que muitos de vocês estiveram por lá e, mesmo cientes do que deveríamos falar e fazer, se calaram orientados como que para fora de si. Assim reafirmo: submeto-me em escrita na finalidade de lhes trazer luz, tenham vocês participado ou não, dos reais valores desses últimos gestos de proclamação das mesmas e antigas novas de vida.


Certas ideias quando orientadas por um desejo interior e borbulhante costumam trocar as pernas no modo como saem, dançantes, do estado de ideia para o de fala – ou até escritas. Mas isso é um ensino do qual eles necessitavam ouvir, ainda que nem soubessem disso – e eu não dei de falar por crença ou gosto, não foi pelo agrado dos olhos atentos. Sei bem que fiz pela consciência de que não poderia carregar aquilo sozinho.

Mas vestidos de presunção, herdam de si mesmo suas ignorâncias; muito se movem para se sentirem dignos da felicidade que chamam de pausa.  Ensinam uns aos outros que precisam inegavelmente compreender para o outro e não para si, e ainda que todo saber alcançado deve ser, por ordem, dados aos outros como dádiva de conhecimento.

Nisto reclinam-se os homens sobre si mesmos: na legalização daquilo que, por elaboração interior entenderam primeiro pra si mesmo.

Daí, continuados em suas ignorâncias, orientados pela crença na duração de si naquilo que se estendem e perduram as ideias, desvia-se a compreensão do motivo da fala desejosa de expressão, produto de pensamento interior; e o motivo somos nós mesmos.

Então, escolhi dizer isso publicamente. Não para minha própria glória, mas para incitar movimento sobre as mentes quase fraturadas pela repetição de esforços impostos.

– O “como” dos modos de pensar faz lastro e antecede o desdobrar dos vossos próprios pensamentos. Dizem-lhe “o que” pensar na moralização do “como” pensar, e a rodem acaba por se fazer antes mesmo que o pensamento lhe venha a luz. E como se pouco não fosse, ainda chamam seu bom desempenho nisso, de pensar por orientação exterior, de dignidade e caráter.

Em praças gritei sem temor:

– E então, de tanto pensar sob as formas pensamento correto... – acentuei a voz –, no final do pensamento não se conclui nada diferente de tudo aquilo que já se sabia antes de começar a pensar.

Disse essas coisas pela insistência dos homens no tratar do pensamento como mais um modo de ratificação, como reafirmação das mesmas coisas e não como descoberta, como invenção. Aguardei alguma resposta, mas só recebi entreolhadas desconfiadas.

– Mas lhes anuncio! – disse sumindo o tom de voz. – Tristes são aqueles que pensam para fora de si, pois aos poucos se retiram, inclusive, de si mesmos. Fazem curvar sobre a própria cabeça, essa ideia de que nunca mudam. E por isso vosso pensamento insurge como regra para o corpo dos outros antes mesmo de ser principio pra si. Tristes os retirados de si, pois agem como se a compreensão não fosse um modo de abraçar a si mesmo sabendo-se mundo. Agem como se toda ideia não tivesse sido emprenhada, gerada e nascida de seu próprio ventre. Sabem-se por leis antes mesmo de se saberem por sua própria carne.

Então alguns ainda me desprezam continuando sua passagem. Já outros, me era possível ver, diminuíam os paços por indignação ou curiosidade provocadas pelo que acabará de dizer. E então continuei atento aos que me ouviam.

– Por isso, reclamo com veemência o cultivo ideias desanotadas! Digo de experiência própria que permito que o pensamento exista livre. Sem captura de papel, sem gravações, notas ou rascunhos. E ainda, que aprendi a cultivar pensamentos livres de continuidade exterior colocando-os em um estado de coisa não-dita.

– Como assim? – gritou uma mulher. – Acaso manda-nos calar? Quem imagina ser para nos mandar calar?

Sabia tão bem quem sou e o que estava a realizar que escolhi responder na continuidade do que falava, e olhando em seus olhos e nos dos outros que ali estavam, prossegui.

– O fluxo das ideias nem sempre precisa ser expressivos, dado as palavras. Pois vivemos um tempo onde saciamos de autoimpressão. Mais do que dizer, precisamos nos saber a partir de nós mesmos.

– Estas nos rogando como carentes, desequilibradas, loucas? – disse uma bela mulher que, não menos cheia de si, passava por ali.

– Não! – prossegui firmemente vendo-a refletir seus próprios medos naquilo que ouvira em minhas palavras. – Pois não disse autoajuda. E por isso, vocês não me entendem, porque não querem pensar fora das regras. Meus ditos são sobre uma fala desviada da palavra, uma fala desanotada, despretensiosa. Uma fala livre de ordens pré-estabelecidas, e isso não significa só o autoconhecimento como coisa direcionada por outros, mas um alto conhecimento como sabedoria de giro, como gerencia para inventar a si mesmo sem culpa de escolher, errar ou acertar.

Ela ainda parecia não me escutar, por mais que me ouvisse.

– Cultivar a liberdade da fala pensada quer dizer falar para si mesmo antes de para os outros. Pensar para si como quem não deixa de ser aquilo que pensa, sem se livrar do que idealizou na guarnição das boas e seguras regras de notação prontas.

– Mas como pensar sem expressar? Pensar sem guarda de pensamento ao ponto de marcar a mim mesmo com aquilo que não consegui capturar? – me perguntam incessantemente os descrentes de si querendo confusão e as mesmas repostas de sempre. Mas se assustam quando respondo por diferença de suas lógicas ordenadas.

– Mastigá-las, vocês devem mastigar as ideias!

 E a pesar dos olhos arregalados me fitando como louco, continuo:

– Faz-se necessário encaminhar as ideias quando tomados pela crença de que pensamento e digestão, caso se difiram, o fazem por mero fetiche. É necessário força para abandonar o fluxo das ideias como primeira opção, sabendo que por refluxo de pensamento é que se inscreve da sua própria vida sobre si mesmo.

E sem freios afirmei sabendo que alguns poucos compreenderiam:

– A inscrição de alma sobrepõe-se a de bibliotecas inteiras, pois nenhum escrito sobrevive se não for o produto da alma de alguém.

# Eu cheiro livro...

Mania, vício, compulsividade...

XV Bienal do Livro do RJ - 2011
Quando era criança e meu pai recebia, ele sempre me levava pra comprar roupa. Ele achava isso muito importante. Eu sabia que era porque na infância "pobre" dele lá na 
Ilha Grande num dava pra ter muitas roupas (e, particularmente acho que na beira da praia nem precisava, né, rs). Mas pra ele se vestir bem era uma forma de impor respeito já na entrada, ou uma desculpa pra se vestir bem mesmo; tipo ficar na moda "coroa descolado". Nessas peregrinações estilísticas eu sempre dava um jeito de entrar com ele em uma livraria ou em um sebo, ele dizia "Vai vestir livro, meu filho?", eu respondia "Vou sim". E ele me olhava feio, e eu completava "Você num entendi pai, livro é uma roupa interior". Ele ria e eu acabava ganhando o livro e a roupa.

Com o tempo ele percebeu que pra mim livros vinham antes de roupa, e acho que por isso ele começou a deixar a gente na casa da minha avó e só levar minha mãe pra comprar roupa pra gente.