>> Sobre a liberdade do
pensamento desanotado
Escrevo-vos não para a
retenção do que falo, mas para o compartilhamento dos últimos acontecimentos no
cumprimento da missão que me foi outorgada. Como também por saber que muitos de
vocês estiveram por lá e, mesmo cientes do que deveríamos falar e fazer, se
calaram orientados como que para fora de si. Assim reafirmo: submeto-me em
escrita na finalidade de lhes trazer luz, tenham vocês participado ou não, dos
reais valores desses últimos gestos de proclamação das mesmas e antigas novas
de vida.
Certas ideias quando
orientadas por um desejo interior e borbulhante costumam trocar as pernas no
modo como saem, dançantes, do estado de ideia para o de fala – ou até escritas.
Mas isso é um ensino do qual eles necessitavam ouvir, ainda que nem soubessem
disso – e eu não dei de falar por crença ou gosto, não foi pelo agrado dos
olhos atentos. Sei bem que fiz pela consciência de que não poderia carregar aquilo
sozinho.
Mas vestidos de presunção,
herdam de si mesmo suas ignorâncias; muito se movem para se sentirem dignos da
felicidade que chamam de pausa. Ensinam uns
aos outros que precisam inegavelmente compreender para o outro e não para si, e
ainda que todo saber alcançado deve ser, por ordem, dados aos outros como dádiva
de conhecimento.
Nisto reclinam-se os
homens sobre si mesmos: na legalização daquilo que, por elaboração interior entenderam
primeiro pra si mesmo.
Daí, continuados em
suas ignorâncias, orientados pela crença na duração de si naquilo que se
estendem e perduram as ideias, desvia-se a compreensão do motivo da fala
desejosa de expressão, produto de pensamento interior; e o motivo somos nós
mesmos.
Então, escolhi dizer
isso publicamente. Não para minha própria glória, mas para incitar movimento
sobre as mentes quase fraturadas pela repetição de esforços impostos.
– O “como” dos modos
de pensar faz lastro e antecede o desdobrar dos vossos próprios pensamentos. Dizem-lhe
“o que” pensar na moralização do “como” pensar, e a rodem acaba por se fazer antes
mesmo que o pensamento lhe venha a luz. E como se pouco não fosse, ainda chamam
seu bom desempenho nisso, de pensar por orientação exterior, de dignidade e
caráter.
Em praças gritei sem
temor:
– E então, de tanto
pensar sob as formas pensamento correto... – acentuei a voz –, no final do
pensamento não se conclui nada diferente de tudo aquilo que já se sabia antes
de começar a pensar.
Disse essas coisas
pela insistência dos homens no tratar do pensamento como mais um modo de ratificação,
como reafirmação das mesmas coisas e não como descoberta, como invenção. Aguardei
alguma resposta, mas só recebi entreolhadas desconfiadas.
– Mas lhes anuncio! –
disse sumindo o tom de voz. – Tristes são aqueles que pensam para fora de si,
pois aos poucos se retiram, inclusive, de si mesmos. Fazem curvar sobre a
própria cabeça, essa ideia de que nunca mudam. E por isso vosso pensamento insurge
como regra para o corpo dos outros antes mesmo de ser principio pra si. Tristes
os retirados de si, pois agem como se a compreensão não fosse um modo de
abraçar a si mesmo sabendo-se mundo. Agem como se toda ideia não tivesse sido
emprenhada, gerada e nascida de seu próprio ventre. Sabem-se por leis antes mesmo
de se saberem por sua própria carne.
Então alguns ainda me
desprezam continuando sua passagem. Já outros, me era possível ver, diminuíam
os paços por indignação ou curiosidade provocadas pelo que acabará de dizer. E
então continuei atento aos que me ouviam.
– Por isso, reclamo
com veemência o cultivo ideias desanotadas!
Digo de experiência própria que permito que o pensamento exista livre. Sem
captura de papel, sem gravações, notas ou rascunhos. E ainda, que aprendi a cultivar
pensamentos livres de continuidade exterior colocando-os em um estado de coisa
não-dita.
– Como assim? – gritou
uma mulher. – Acaso manda-nos calar? Quem imagina ser para nos mandar calar?
Sabia tão bem quem sou
e o que estava a realizar que escolhi responder na continuidade do que falava,
e olhando em seus olhos e nos dos outros que ali estavam, prossegui.
– O fluxo das ideias
nem sempre precisa ser expressivos, dado as palavras. Pois vivemos um tempo
onde saciamos de autoimpressão. Mais do que dizer, precisamos nos saber a
partir de nós mesmos.
– Estas nos rogando
como carentes, desequilibradas, loucas? – disse uma bela mulher que, não menos
cheia de si, passava por ali.
– Não! – prossegui
firmemente vendo-a refletir seus próprios medos naquilo que ouvira em minhas
palavras. – Pois não disse autoajuda. E por isso, vocês não me entendem, porque
não querem pensar fora das regras. Meus ditos são sobre uma fala desviada da
palavra, uma fala desanotada, despretensiosa.
Uma fala livre de ordens pré-estabelecidas, e isso não significa só o autoconhecimento
como coisa direcionada por outros, mas um alto
conhecimento como sabedoria de giro, como gerencia para inventar a si mesmo
sem culpa de escolher, errar ou acertar.
Ela ainda parecia não
me escutar, por mais que me ouvisse.
– Cultivar a liberdade
da fala pensada quer dizer falar para si mesmo antes de para os outros. Pensar
para si como quem não deixa de ser aquilo que pensa, sem se livrar do que
idealizou na guarnição das boas e seguras regras de notação prontas.
– Mas como pensar sem
expressar? Pensar sem guarda de pensamento ao ponto de marcar a mim mesmo com
aquilo que não consegui capturar? – me perguntam incessantemente os descrentes
de si querendo confusão e as mesmas repostas de sempre. Mas se assustam quando
respondo por diferença de suas lógicas ordenadas.
– Mastigá-las, vocês
devem mastigar as ideias!
E a pesar dos olhos arregalados me fitando
como louco, continuo:
– Faz-se necessário encaminhar
as ideias quando tomados pela crença de que pensamento e digestão, caso se difiram,
o fazem por mero fetiche. É necessário força para abandonar o fluxo das ideias
como primeira opção, sabendo que por refluxo
de pensamento é que se inscreve da sua própria vida sobre si mesmo.
E sem freios afirmei
sabendo que alguns poucos compreenderiam:
– A inscrição de alma
sobrepõe-se a de bibliotecas inteiras, pois nenhum escrito sobrevive se não for
o produto da alma de alguém.
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