>> As heresias do homem
sem passado
e suas expectativas de futuro
– Mas há tantas coisas
para não se esquecer... –, relincham quase sem palavras os temerosos e
incrédulos de si. No entanto, para evitar o
espaço comumente dedicado aos seus egos fracos pela necessidade de constante reafirmação. Retruquei então, já em tons de certa impaciência:
– Já não desejamos até
bem mais do que podemos reconhecer e lembrar? E por acaso ainda não vivemos, e
mais ainda desejamos?
Mas ainda, insistem em
suas ilusões, agora com arrogância e cridos de suas próprias pertinências:
– Diga-me então, mas
não nos engane com seu modo poético de negar nossa poesia... – reclamou uma
jovem senhora dona de um semblante clinicamente analítico. – Diga-nos: Se lembrássemos
de todo o tempo que já vivemos, e de tudo não nos desfizéssemos em notas bem
engavetadas, onde haveria espaço para a novidade? O que enxergaríamos se a tudo
sempre e sempre recordássemos? Sobreviveríamos a esse entulhamento das ideias?
– E os outros, aqueles
ainda por vir, seriam privados no castigo de redescobrir o que já encontramos? –
completou uma outra mulher que ali estava há muito ansiosa alguma oportunidade
de fala.
– Bem, noto que mesmo
me vendo e ouvindo, não me compreendem –, disse-lhes inclinando meu olhar com
mansidão sobre seus ofensivos olhos. – Não nego sua poesia em meus versos, mas
sua crença de que algo possa sobreviver fora dos corpos. Algo mesmo que nos
pareça belo, o é em nós, e só porque outro também diz que nele belo lhe é, não
significa que o mesmo seja.
E vi então em seus
olhos a tensão se desfazer, não só a senhora, mas agora outros tentariam me
entender, pois o coração lhes rachara com essas ultimas palavras.
– Ruminar o pensamento
não é, e eu bem vos digo, “não” é mantê-lo vivo como uma luz eternamente acesa.
Mas fazê-los corpo na continuidade de um movimento que é eterno desde a
fundação dos tempos e que continuará naquilo que nos saberemos eternidade. Pois
é justamente de esquecer sobre o que verdadeiramente lhes falo, e não, nunca
foi sobre lembrar.
E nisso se espantaram,
alguns curiosos outros novamente descrentes, mas continuei:
– Tal qual esquecer
não se faz pela negação das forças intensivas da vida, não se faz estando no
rio fingindo não estar. Não me refiro ao esquecer amedrontado como sempre tem
feito o homem herdando o medo da vida como algo congênito a própria vida.
Refiro-me então a um grau de aceitação do tempo, da matéria e das ideias, onde
memória e corpo se indistinguem, lembranças são cicatrizes e o pensamento se apresenta
como o alimento do qual primeiro se tirou força pra nós mesmos, antes de apresentá-los
ao outros.
O silêncio suspendia o
ar sobre essas palavras, até que por voz de homem se rogou novamente as lógicas
do tolo. Lógica daqueles que não querem a resposta ao fim da pergunta, mas sim
guerrear pela razão.
– Louco! Queres então
queimar nossas bibliotecas, negar o que tão bem fez nossos antepassados? Não
basta ser louco, queres nos contagiar com suas heresias de homem sem passado!
De homem sem nome, diferente de todos nunca o mesmo!
E uma grande confusão
se armou, a ponto de até me fazer pensar em desistir dos poucos que em meio a
muitos me ouviam.
Daí, crido na
dignidade do corpo pensante, relutando com a pobreza do espírito imundo que ameaçava
contagiar alguns dos que me começava compreender, eu insistir em voz que se
sobrepôs a todos:
– Sem reluta de
verdade, ou caminhos fáceis em minha explicação eu vós afirmo: Toda a sua saudade é a própria memória do coração,
enquanto as suas expectativas são o reuso de lembranças em prol do desejo de
novas versões de futuro.Vos falo,e assim faço sem medo algum do vosso comum
caminho de crucificação dado aqueles que lhe ousaram com Verdades. E ainda
mais, que a versões de futuro que cada um de vocês espera é aquela onde mesmo dizendo que não, vocês pensam,
e querem veementemente ser diferentes de si mesmo! Olhem, mas enxerguem, pois
diferentes vocês já o são e constantemente o são não só dos outros como de si
mesmos!
Então todos se calam e
dispersão para longe daquela verdade. Mas eu confesso que aquela era uma
pequena parte de tudo o que eu ainda tinha para lhes dizer. No entanto, não me
doeu lhes ver dispersar, pois tudo o que lhes diria, faria pouco a pouco. Hoje
eu havia tomando proveito dos poucos corações entreabertos e cada qual sua
pequena dose recebeu.
Era-me necessária
paciência, pois se de uma única vez eles de tudo soubessem, menos ainda iriam
crer. Mas de certo me guardo de que os quais me ouviram e me viram, na novidade
de suas mentes, aos poucos se perceberão aprendendo, conhecendo e lembrando por
estranhas lógicas cardíacas onde as intensidades de amor aos poucos serão o
centro de todo sentido, e daí nascerão os verdadeiros significados – mas isso
da semântica do amor, é motivo para novas e outras correspondências.
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