quinta-feira, 4 de abril de 2013

# Lembrar com o coração® – Parte II

>> Sobre a ruminância do não-dito
e a nudez dos pés


– A reflexão de nós mesmo sobre as águas das eternas transformações do rio em que um dia o homem entrou, hoje dão lugar a uma longa estante de rostos prontos que pensam por eles antes deles. – disse isso mesmo sabendo que escandalizava a muitos.

– Agora somos falsos, mascarados hipócritas? – me perguntou sarcasticamente um senhor bem vestido de linho, riqueza e prepotência. – O senhor tem certeza que escolhes me ofender? Por acaso sabe com quem está a falar?

– Quando já não há mais pensamento livre dentro do corpo é porque fomos acreditados que ideia boa é aquela segura fora de si. Aquela na vitrine, exposta para vestirmos e caminharmos por ai. – disse a todos e então me voltei ao senhor que se via bem vestido.

– E é esse o motivo que me leva a dizer tais coisas, pois cultivar pensamentos em modos de ruminância é de extrema necessidade. Aquilo que dizemos ser distancia-se a passos largos de quem somos e como principio enganamos primeiro a nós mesmos. –insisti em afirmar sem receios.

– Olha lá rapaz veja bem com que está falando, somos a importância e a continuidade disso tudo. – me disse outro senhor também escondido de si em boas roupas e poder.

– A escritura que fazemos de nós mesmo uns para os outros não deve nos enganar. – disse para os senhores poderosos. – Tolos acham que nas coisas escritas se refletem o mesmo daquelas pensadas, ou ainda que das coisas pensadas algo possa ainda o mesmo ser quando escrita.

– Alguém chame a policia para acalmar esse homem que em praça pública ousa mentir. – exclamou os lábios vermelhos de uma jovem muito bonita que, como propriedade, parecia acompanhar um dos homens.

– A escrita é outro modo de espelhamento, de armação do ser. Mas esse é um modo já muito experimentado em toda essa sociedade que acredita que reflexo é a maneira como nos postamos frente às vitrines, nos dando aos jogos de sobreposição das imagens dos nossos próprios corpos em juízos já projetados antes mesmo de nós chegarmos, rostos, corpos e vidas, tudo pré-moldado.

Afastou-se a mulher indignada e levando uma das mãos no rosto e outra sobre o peito. Ambos, aparentemente, presente do seu proprietário.

No entanto, logo se deu as minhas vistas um jovem de aparência desleixada, que antes ali mesmo, em praça, tão público como a minha fala, fazia som com seu violino com fins de alguns trocados. Rapidamente se mostrou emergindo daquela pequena multidão e disse:

– Mas isso, tudo isso que você tanto insiste em reclamar, é pra colocar na memória só àquilo que o coração sente? – e disse dessa maneira, pois achava me agradar.

Contudo, tal como ele, existia outros que se acham profundos, apenas por aquilo que dizem preferir o compreender da vida se o fazem ao dizê-la em poesia. Como ele há outros que ainda não sabem, e por isso lhe disse:

– A poesia já nascia antes das suas partituras, antes do quadro, e até mesmo dos paços daquela dança no palco. Pois toda poesia nãoé o que se diz, mas sim modo divinatório de olhar para o mundo deformando-o de suas destrezas, um modo de torcer o retilíneo e curvar a mente daqueles que acham que as coisas existem poderosas por aquilo que são descritas.

E ele me olhou profundamente, como quem demonstrou que concordava no modo como me sorriu, se virou e saiu a gritar:

– Venham todos ouvir o que esse homem diz!

Então respondi aos que ficaram:

– Sim, deve-se lembrar com o coração! – e completei – Pois a lembrança que não é corpo, também não se regenera em cicatriz. Mas se vai, desfeita na sobreposição de lama constantemente renovada, mesmo que negada, por sob os pés sempre calçados dos temerosos e descrentes na vida.

Olhei para os meus pés e percebi quantos fizeram o mesmo. Pois eu estava descalço, e o que causou repulsa em alguns se tornava, em ato, continuidade da minha fala para outros. Pois todos ali também liam o meu corpo, mas como outros poucos entendiam o que lhes falava, menos ainda conseguiam me ver além das minhas roupas e pés descalços.

– Retirem seus falsos solados de pé! E ousem caminhar sobre si mesmo, deixem todo chão marcado de pegadas à medida que seus pés se marcam de chão! – disse sem pausa de respiração. Mas nudez de pés e espírito sempre lhes parece perigoso à saúde, que é essa mentira infame sobre estabilidade do ser. E assim, justamente assim pela preservação de um corpo que desconhecem que o ato de lembrar com o coração vira doença. Uma patologia própria de adolescentes febris de corpos monstruosamente mutáveis.

– Vocês pensão como se possível fosse a estabilidades dos seres, ao menos em algum momento “maduro” da vida. Olhem a natureza e se perguntem: “Tem a flor ou a fruta a plenitude sua existência somente em sua maturidade ou florescer? Não são elas o que são, mesmo que diferentes de si, tão antes quanto depois?”.

E antes que alguém, descrido e desentendido das integridades natural dos frutos e das flores, eu disse:

– Tolos os cridos nisso da estabilidade como plenitude de vida. Tolos os que confiam na pausa como descanso e essência da felicidade. Tolos os que confiam, e naquilo que mente finge pra si, os mesmo sempre ser. Tolos, não aqueles que não me entendem, mas os que escolhem não entender naquilo que fingem não ser parte do mundo; os que não acham em si nem o fruto, nem a flor.

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