>> Sobre a ruminância do não-dito
e a nudez dos pés
– A reflexão de nós
mesmo sobre as águas das eternas transformações do rio em que um dia o homem
entrou, hoje dão lugar a uma longa estante de rostos prontos que pensam por eles
antes deles. – disse isso mesmo sabendo que escandalizava a muitos.
– Agora somos falsos,
mascarados hipócritas? – me perguntou sarcasticamente um senhor bem vestido de
linho, riqueza e prepotência. – O senhor tem certeza que escolhes me ofender?
Por acaso sabe com quem está a falar?
– Quando já não há
mais pensamento livre dentro do corpo é porque fomos acreditados que ideia boa
é aquela segura fora de si. Aquela na vitrine, exposta para vestirmos e
caminharmos por ai. – disse a todos e então me voltei ao senhor que se via bem
vestido.
– E é esse o motivo
que me leva a dizer tais coisas, pois cultivar pensamentos em modos de ruminância é de extrema necessidade.
Aquilo que dizemos ser distancia-se a passos largos de quem somos e como
principio enganamos primeiro a nós mesmos. –insisti em afirmar sem receios.
– Olha lá rapaz veja
bem com que está falando, somos a importância e a continuidade disso tudo. – me
disse outro senhor também escondido de si em boas roupas e poder.
– A escritura que fazemos de nós mesmo uns
para os outros não deve nos enganar. – disse para os senhores poderosos. –
Tolos acham que nas coisas escritas se refletem o mesmo daquelas pensadas, ou
ainda que das coisas pensadas algo possa ainda o mesmo ser quando escrita.
– Alguém chame a
policia para acalmar esse homem que em praça pública ousa mentir. – exclamou os
lábios vermelhos de uma jovem muito bonita que, como propriedade, parecia
acompanhar um dos homens.
– A escrita é outro
modo de espelhamento, de armação do ser. Mas esse é um modo já muito
experimentado em toda essa sociedade que acredita que reflexo é a maneira como
nos postamos frente às vitrines, nos dando aos jogos de sobreposição das
imagens dos nossos próprios corpos em juízos já projetados antes mesmo de nós
chegarmos, rostos, corpos e vidas, tudo pré-moldado.
Afastou-se a mulher
indignada e levando uma das mãos no rosto e outra sobre o peito. Ambos, aparentemente,
presente do seu proprietário.
No entanto, logo se deu
as minhas vistas um jovem de aparência desleixada, que antes ali mesmo, em
praça, tão público como a minha fala, fazia som com seu violino com fins de alguns
trocados. Rapidamente se mostrou emergindo daquela pequena multidão e disse:
– Mas isso, tudo isso
que você tanto insiste em reclamar, é pra colocar na memória só àquilo que o
coração sente? – e disse dessa maneira, pois achava me agradar.
Contudo, tal como ele,
existia outros que se acham profundos, apenas por aquilo que dizem preferir o compreender
da vida se o fazem ao dizê-la em poesia. Como ele há outros que ainda não sabem,
e por isso lhe disse:
– A poesia já nascia
antes das suas partituras, antes do quadro, e até mesmo dos paços daquela dança
no palco. Pois toda poesia nãoé o que se diz, mas sim modo divinatório de olhar para o mundo deformando-o de suas destrezas,
um modo de torcer o retilíneo e curvar a mente daqueles que acham que as coisas
existem poderosas por aquilo que são descritas.
E ele me olhou
profundamente, como quem demonstrou que concordava no modo como me sorriu, se
virou e saiu a gritar:
– Venham todos ouvir o
que esse homem diz!
Então respondi aos que
ficaram:
– Sim, deve-se lembrar
com o coração! – e completei – Pois a lembrança que não é corpo, também não se regenera
em cicatriz. Mas se vai, desfeita na sobreposição de lama constantemente renovada,
mesmo que negada, por sob os pés sempre calçados dos temerosos e descrentes na
vida.
Olhei para os meus pés
e percebi quantos fizeram o mesmo. Pois eu estava descalço, e o que causou
repulsa em alguns se tornava, em ato, continuidade da minha fala para outros. Pois
todos ali também liam o meu corpo, mas como outros poucos entendiam o que lhes
falava, menos ainda conseguiam me ver além das minhas roupas e pés descalços.
– Retirem seus falsos
solados de pé! E ousem caminhar sobre si mesmo, deixem todo chão marcado de
pegadas à medida que seus pés se marcam de chão! – disse sem pausa de
respiração. Mas nudez de pés e espírito sempre lhes parece perigoso à saúde,
que é essa mentira infame sobre estabilidade do ser. E assim, justamente assim pela
preservação de um corpo que desconhecem que o ato de lembrar com o coração vira
doença. Uma patologia própria de adolescentes febris de corpos monstruosamente
mutáveis.
– Vocês pensão como se
possível fosse a estabilidades dos seres, ao menos em algum momento “maduro” da
vida. Olhem a natureza e se perguntem: “Tem a flor ou a fruta a plenitude sua existência
somente em sua maturidade ou florescer? Não são elas o que são, mesmo que
diferentes de si, tão antes quanto depois?”.
E antes que alguém,
descrido e desentendido das integridades natural dos frutos e das flores, eu
disse:
– Tolos os cridos
nisso da estabilidade como plenitude de vida. Tolos os que confiam na pausa
como descanso e essência da felicidade. Tolos os que confiam, e naquilo que
mente finge pra si, os mesmo sempre ser. Tolos, não aqueles que não me entendem,
mas os que escolhem não entender naquilo que fingem não ser parte do mundo; os
que não acham em si nem o fruto, nem a flor.
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